Os diagnósticos de TDAH durante a pandemia da Covid-19

Neuropediatra alerta que o momento exige atenção redobrada para conclusão clínica

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Photo by Allen Taylor on Unsplash

Michael Jordan, Will Smith, Sabrina Sato, Jim Carrey, Paris Hilton, Michael Phelps, Walt Disney. Todo mundo já ouviu falar dessas grandes personalidades, mas o que muita gente não sabe é que elas precisaram aprender a conviver com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), assim como milhares de outras pessoas em todo mundo. Conforme dados da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (SBDA), esse distúrbio afeta até 5% das crianças nos vários países do globo e, em mais da metade dos casos, acompanha o indivíduo na vida adulta.

Conforme explica a neuropediatra Dra. Daniela Godoy, da Clínica N3 — Neurologia, Neurocirurgia e Neuropediatria, o transtorno compromete a aprendizagem escolar ou mesmo global e pode afetar a coordenação motora fina e grossa. “Uma criança com TDAH pode ter dificuldade para andar de bicicleta, nadar e brincar com jogos de tabuleiro, por exemplo”, cita. Estudos mostram que pessoas diagnosticadas com TDAH têm disfunções na região frontal do cérebro e em suas conexões. Esse distúrbio é formado por um tripé de sintomas caracterizados por desatenção, impulsividade e hiperatividade.

Embora já seja possível observar alguns sinais do transtorno em crianças com 2–3 anos (mais irritadas, têm pouca necessidade de sono e são agitadas), geralmente, eles são mais precisos no ano escolar de alfabetização, na faixa dos 7 anos, quando a criança se destaca em comparação aos outros alunos por apresentar baixo rendimento. Normalmente, os meninos são mais agitados e as meninas apresentam mais desatenção. A neuropediatra explica que as professoras observam esses sinais durante aproximadamente seis meses, pressupõem TDAH e encaminham o aluno para avaliação especializada.

O acompanhamento de uma equipe multidisciplinar (professor, psicopedagogo entre outros) aliado à atividade física e medicação compõem o protocolo ideal de tratamento. “A pessoa nunca vai deixar de ser desatenta ou hiperativa, mas com todos esses cuidados, a melhora pode ser de até 100%”, garante. Segundo explica, conforme crescem e amadurecem, as crianças aprendem a lidar com as dificuldades próprias do transtorno e, na vida adulta, 50% dos que têm diagnóstico ficam livres da medicação. Já os que não tratam na infância podem ter sérias consequências no futuro como perder o emprego, bater o carro ou esquecer de pagar contas.

Estigma da medicação

A resistência por parte dos pais em aceitar o diagnóstico retarda a ida ao neuropediatra e, consequentemente, o início do tratamento. “Muitos demoram até dois anos para chegar em mim”, conta Dra. Daniela. Passada essa etapa, comumente ocorre o preconceito com relação ao uso de medicamentos. Há um estigma sobre eles, pois acredita-se que dopam o paciente, mas isso não ocorre, ao contrário, é um dos pilares do tratamento, fundamental para a melhora dos sintomas. Os efeitos colaterais podem aparecer, mas na maioria das vezes são temporários e leves. Segundo a neuropediatra, só a terapia e a mudança de comportamento da família podem não ser tão eficazes.

Os psicoestimulantes melhoram a concentração, o foco e a atenção. Consequentemente, trazem como benefício um melhor desempenho em sala de aula, menor ocorrência de desatenção e impulsividade. Eles podem ser administrados com prescrição médica a partir dos 5 anos de idade.

A médica cita casos de sucesso de jovens que ela acompanha desde pequenas que, atualmente, estão cursando faculdade de Medicina e de Design de Games. Uma delas ainda está medicada e a outra não. “Com um bom tratamento, é possível ter sucesso”, garante.

Diagnósticos x coronavírus

A pandemia do Covid-19 chegou e impôs desafios para todas as pessoas, alguns mais particulares para quem tem TDAH. As novas dinâmicas domésticas que alteraram a rotina familiar somadas ao rigor de constantes medidas de higiene para evitar contaminação são fatores que merecem ser considerados, pois podem afetar a saúde mental das crianças diagnosticadas com esse transtorno.

A neuropediatra Daniela relata, inclusive, que desde março nenhum paciente ficou estabilizado ou teve melhoras, todos pioraram. “As crianças que têm atividades online apresentam dificuldade para executá-las e as que têm propostas impressas não conseguem fazê-las sozinhas. Acredito que o fato de os pais não terem preparo para ensinar como as professoras também influencia muito”, observa.

Com pesar, ela atesta que para a maioria das crianças com TDAH o ano escolar está perdido. “Ainda não consigo medir o prejuízo, pois o timing de alfabetização vai ser diferente para cada um, mas posso afirmar que as perdas serão maiores para quem tem TDAH”, comenta completando que será necessário, nos próximos anos, correr atrás do que 2020 deixou perdido. Neste período pandêmico, alguns comportamentos comuns ao TDAH foram aflorados, como aumento da ansiedade, distúrbios do sono e compulsão alimentar.

Além das áreas financeiras e emocionais, que foram afetadas pela pandemia, o confinamento deixou os pais em contato maior com as crianças e, consequentemente, houve mais procura de mães por especialistas com queixas de sintomas que se enquadram em TDAH. No entanto, só com as observações da família não é possível chegar a uma conclusão clínica. “Com o ensino a distância, as professoras não tiveram a oportunidade de avaliar os alunos, e sem esse feedback da escola fica difícil fechar um diagnóstico. Eu já tinha cuidado antes da pandemia, agora, tenho muito mais”, afirma a neuropediatra que, neste período, preferiu seguir outras abordagens a fechar qualquer diagnóstico ou mesmo suspender o uso de medicamentos.

Dicas da neuro

A orientação da Dra. Daniela para as famílias que tiverem suspeitas de TDAH em casa ou mesmo que estejam com dúvidas, é buscar conhecimento por meio de fontes confiáveis, como o site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (https://tdah.org.br/), sites dos medicamentos e livros que abordem a temática.

Sugestões de leitura:

- No mundo da lua (Paulo Mattos)

- Mentes inquietas: desatenção, hiperatividade e impulsividade (Ana Beatriz Barbosa Silva)

- Desatentos e hiperativos: manual para alunos, pais e professores (Dr. Gustavo Teixeira)

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